Instante Imortalizado

Às vezes choro olhando pro teu retrato.
Aquele mesmo que você não gosta
por causa das sandálias que aparecem jogadas no chão do quarto.
Lembra-se dele?
Aparece teu corpo todo,
tuas belas formas magnificamente evidenciadas.
Estavas em frente ao espelho, prendendo os cabelos.
Te achei tão bela.
Corri para buscar a máquina fotográfica,
queria clicá-la sem que você percebesse.
De alguma forma sentia que precisava imortalizar aquele instante.
Procurando pelo melhor ângulo acabei fazendo um barulho qualquer
e você se deu conta da minha intenção.
Sorriu e eu cliquei antes mesmo de te ouvir dizer
que deveria esperar,
que ainda não terminara de pentear os cabelos.
Não me importava teu cabelo despenteado,
quando acordávamos te achava tão linda levantando depressa
tentando esconder o rosto.
Este teu rosto de mulher mal-humorada
que só quer ser vista depois das dez.
Tá bom então, dizia eu, volte para cá e me abrace,
encoste tua cabeça em meu peito que prometo não olhar.
Não olhava mesmo, apenas sentia tua respiração
e procurava respirar na mesma freqüência.
Uma respiração profunda e uníssona,
uma certeza absurda de que respiraríamos juntos
até pararmos de respirar.
Meu bem, já tô ficando com cara de gente?
Você me perguntava algum tempo depois.
Eu fingia me assustar e ríamos muito.
Este teu sorriso precedia sempre o nosso primeiro beijo do dia.
Era assim, só lábio encostado no lábio.


Às vezes, quando acordo e te vejo aqui ao meu lado,
te digo que acordaste bela como nunca.
Depois me dou conta de que o que tenho comigo
agora nada mais é que um instante imortalizado
e sinto uma vontade imensa de vê-la com o cabelo despenteado.
Te ponho sobre meu peito e quase ouço a tua voz
me dizendo que tem medo de me perder.
Lembra que me disseste isto?
Que tinha medo de me perder?
Eu dizia que não nos perderíamos nunca
e você me pedia para não ser tão categórico.
Naquele instante esta era a nossa vontade.
Pena não termos imortalizado aquele instante também.
Quando te ponho sobre meu peito
respiro como se respirássemos juntos ainda.
Aprendi tão rápido a freqüência de tua respiração.
Tínhamos uma sintonia fina espantosa.
Uma sintonia que te deixava amedrontada,
um medo besta de achar que estava sonhando.
Neste instante, que também não conseguimos imortalizar,
eu te abraçava forte, para que você percebesse
que estávamos sim muito bem acordados.
Uma vez você me disse assim,
meu bem você é tão doce, tem o coração tão sereno.
O beijo que se seguiu a esta tua fala eu não conseguirei explicar jamais.


Às vezes, quando meu coração já não consegue permanecer sereno,
procuro aquele nosso instante imortalizado
e agora emoldurado em um singelo porta-retrato.
Tornou-se um confidente e tanto este porta-retrato.
Já me viu chorando de saudade.
Um dia fiquei bravo com ele.
Disse-lhe que você era só minha
e que ele jamais sentiria o gosto do teu beijo e a textura da tua pele.
Contei-lhe de quando vi e beijei teus seios pela primeira vez.
Lembra-se?
Domingo à noite e só você prestando atenção ao filme que passava na TV.
Eu dizia que sim a todos os teus comentários
enquanto passava a ponta dos dedos em teu colo.
Meu bem você é tão carinhoso!
Te ouvi dizer enquanto tirava tua blusa.
Este maldito porta-retrato jamais saberá o que se esconde por baixo de tua blusa. Teus seios tão lindos!
Este instante tenho imortalizado em meu coração,
emoldurado em minha memória.
Então, quando meu coração já não consegue permanecer sereno,
te vejo emoldurada e me pego beijando seios imaginários.
Nenhum deles tem a beleza e o aconchego dos teus.


Às vezes imagino que Maria Luiza estaria já uma menina muito linda.
Depois me dou conta de que Maria Luiza não existe.
Não fizemos nossa Maria Luiza,
um sonho teu que precisamos realizar.
Meu bem preciso ser mãe de uma menina bem linda
antes de completar trinta anos, dizia você.
Ainda temos tempo meu amor,
digo para nosso instante imortalizado e emoldurado.
Quando te falo que ainda temos tempo
Sinto que você me ouve e que sorri dizendo que sim.
Sim meu bem, ainda faremos a nossa Maria Luiza,
espere nosso próximo encontro.
Quando nos encontrarmos novamente respiraremos juntos,
uma respiração profunda e uníssona.
Imortalizaremos este instante também,
combinado?

Tarcisio Zacarias Santos

 

Tarcísio,
Voce é um poeta que me emociona.
Esta poesia toda vez que eu a leio, eu choro.
É um relato emocionante, e por ser mulher,
considero um relato único e divino.
Parabéns meu amigo pela sua inspiração.
Sou sua fã!
Um beijo

Mary


Indique esta página







Edição: 31.05.04








® Mary Martins Fioratti - Direitos Reservados © - 2004