Vovó Aracy

Minha avó materna, Aracy Villaça Guimarães, nasceu em São Paulo no dia 5 de julho de 1899. Era filha do Dr.
Isaias Villaça Guimarães e de D. Isabel Maria da Silva Villaça.
Formou-se professora primária em 1918, na Escola Normal de Guaratinguetá, onde conheceu meu avô Juquita.
Casaram-se em Aparecida do Norte no dia 8 de julho de 1922. Tiveram seis filhos: Flávio, Sônia, Magda, Fábio,
Carmen Aparecida e Isaias.

Exerceu por alguns anos a profissão de Professora, desistindo de lecionar com o nascimento
de seu primeiro filho.

Depois de casada, morou em Caçapava, onde nasceram os cinco primeiros filhos, depois mudou-se para S.Paulo,
onde nasceu o último. Depois de S.Paulo, seguiu meu avô para Santos, Campinas, Jundiaí e finalmente Marília,
onde morreu dia 6 de outubro de 1983.

Seu nome foi dado a uma das ruas de Marília, o que muito nos honra.

Minha Querida Vovó Aracy:

Lembro-me bem de seu rosto. Uma pele alva, aquele sorriso tão meigo.

Minha avó era bem alta, mas era frágil e feminina. Lembro dela velhinha com sua cabecinha branca, e uma coisa
que se fechar os olhos eu sinto, é a maciez de sua mão. Mãos compridas, finas, com pele de criança.

Sempre eu pintava suas unhas com um esmalte chamado “Rosa-Rei”. Sentava, ajoelhada, tomando suas mãos
entre as minhas e ela ficava conversando e contando histórias.

Ela era altiva, embora tivesse uma meiguice não só em seu olhar, como em seu rosto.

Ela me dava conselhos de “não andar atrás dos rapazes”, de “ser bem difícil, porque era assim
que eles gostavam”.

Olhava para mim dizendo que quando ela assistia aquele seriado da “Freirinha Voadora” sempre lembrava
de mim (dizia que eu era a cara da Sally Field).

O que eu gostava na vovó é que ela estava contando um caso e de repente comecava a rir que não parava mais,
e tinha uma risada gostosa mas bem baixinha.

Era muito alta, mas movia-se com a graça e feminilidade. Era delicada nos gestos.

Sempre muito cheirosa, adorava talcos, perfumes. Lembro que quando a visitava em Marília, eu entrava em
seu quarto e ela dizia: “Abre aquela gaveta ali da minha cômoda, que eu comprei uns perfumes para você”.

Mesmo depois de casada, eu tirava uma semana de férias para ficar com ela em Marília. Passava o tempo todo
com ela na cama (ela tinha depressão, e ficava sempre deitada) e eu ficava conversando com ela,
e eu a fazia rir muito.

Ficava perguntando muitas coisas do passado, e ela sempre me comparava com uma amiga que ela teve em
Caçapava , que fazia mil perguntas, que tinha o apelido de “Doca”. Toda vez que eu deitava com ela, ela ria e
dizia: “Deita aí, Doca”. E ria muito. Quando ela ria, praticamente movia o corpo, mas a sua risada
era delicada e baixinha.

Eu ficava alisando seus cabelos branquinhos, segurando na sua mão. Adorava beijar seu rostinho
tão macio e cheiroso.

Quando meu avô morreu em 1979, em 1980 fui passar uma semana com ela. Ela dormia no quarto
com uma enfermeira.

E esta vez que eu fui, como meu avô já havia morrido, dormi com ela na cama de casal.
A noite ouvia ela falando baixinho.

E eu perguntava: “Vó, com quem você está falando?” e ela dizia: “Com o Juquita, ele está perguntando se eu
tomei meu remédio”.

Eu morria de medo, pois sempre tive medo desta parte de “espíritos” (risos).

Então eu ouvi um barulho na janela, como se alguém estivesse trancando, e ela disse: “Não se preocupe filha,
é seu avô que está checando se tudo está fechado”.

(E era mesmo o que ele fazia todas as noites...).
"O que vó, meu avôôôô? Ele morreu, Vó” E eu ficava apavorada embaixo das cobertas.

Os dois tinham uma ligação muito grande, tendo vivido juntos por 57 anos.

Misturando aqui um pouco minha avó com meu avô…. Ela tinha depressão, e meu avô, de manhã, sentava com
ela no sofá, de mãos dadas, e lia o jornal “Diário Popular” (o jornal do Sangue). Então ele começava: “Matou a
mãe com duas facadas!”. E ela: “Ah Juquita, não me lê essas coisas!” E ele: “É para distrair você meu Anjinho”.
Que distração, heim?

Anjinho para lá e para cá…. E assim iam os dois …

Uma coisa que sempre me comovia… Meu avô tomava Nescafé todos os dias depois do almoço. Era comum ele
dizer: “Agora quero meu nesquinha”. ( a Nestlé vai ter que me pagar por essa propaganda!).

Então estávamos todos na mesa conversando, e meu avô fazia o “nesquinha” dele. Aí minha avó o seguia com o
olhar e dizia baixinho para a gente: “Quer ver, ele sempre deixa o finzinho para mim!”. Lembro da minha
angústia olhando meu avô com aquele medão dele esquecer dela. Mas era tão engraçado, ele tomava e
automaticamente, mesmo conversando, parava no finzinho e dava a xícara para ela.

E ela olhava para a gente com aquele olhar orgulhoso dizendo: “Viu, não falei?” E eu respirava aliviada, porque ele
dar a ela o finzinho do nesquinha era uma verdadeira prova de amor para a minha avó!

Havia pedido a minha irmã que escrevesse as lembranças que tinha da vovó, e engraçado que muitas bateram
com as que escrevi em cima:

1) Eles se conheceram quando ela fazia Escola Normal, e ela sempre teve muito orgulho em dizer que ele deu
muito em cima dela!
2) Teve seis filhos, por isso largou sua profissão, e uma coisa importante que minha irmã lembrou foi que ela
alfabetizou todos nós.
3) Sempre protegia as filhas, porque o vovô era muito bravo, (isso me lembrou quando meu pai foi pedir minha
mãe em casamento. Entrou na casa do meu avô, e ele de pijamas assistindo jogo, não deixou meu pai abrir a
boca, e ele saiu sem conseguir falar nada – risos).
4) Minha irmã tem também a mesma lembrança que eu tenho, aquelas mãos macias e fininhas da vovó…
5) Ela lembrou de uma coisa que eu adorava: quando nós deitávamos na cama de casal em volta dela, ouvindo
histórias, como se estivéssemos redescobrindo nossa identidade.
6) Minha irmã define seu porte como aristocrático (e era mesmo!).
7) Tinha olhos grandes e expressivos e um olhar sonhador de quem pairava meio acima das coisas (acho que
esse olhar nos duas puxamos, mana!).
8) Minha irmã também se lembra do perfume natural dela… e dos talquinhos que davam a ela aquele
cheirinho especial.


Tanto eu como minha irmã pensamos que a vovó foi um símbolo de “mãezona, desistindo de sua profissão, para
tomar conta de seus filhos, sempre ouvindo, entendendo e estando presente na vida dos filhos.
Muitas vezes em meio à dor, ela também ria e se esquecia um pouco de tudo, para lembrar-se de histórias
engraçadas, com humor inteligente que muitas vezes nos fazia refletir.

E uma coisa que minha irmã disse e eu sempre senti…” deitar-se um pouco na sua grande cama de casal fazia
muitas vezes a gente se sentir repousado e tranquilo sem medo do mundo…”

Uma lembrança que tenho da minha avó: tínhamos um cachorrinho quando morávamos em S. José chamado “Toquinho”. Um dia, eu tinha uns 13 anos, estava sentada no degrau da porta da cozinha com ele no colo, e ela
me ouviu dizendo para ele: “Toquinho, voce não é cachorro, você é gente!” Ela se encantou com aquela frase.

Sempre me dizia assim: “Filha, repete aquilo que você disse do Toquinho”. E eu tinha que repetir a toda hora.
E ela contava para todo mundo.

Tinha uma música que eu cantava, que me lembro um pedacinho… que ela pedia para eu cantar para ela
quando ela estava deitada. . Chamava-se ÍNDIA” e vou transcrevê-la aqui:

ÍNDIA

Índia seus cabelos nos ombros caídos
Negros como a noite que não tem luar
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar
Índia da pele morena
Sua boca pequena eu quero beijar
Índia sangue tupy, tens o cheiro da flor
Vem que eu quero lhe dar, todo o meu grande amor
Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer adeus
Fica nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos teus
Índia levarei saudade da felicidade que você me deu
Índia a sua imagem sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Flor do meu Paraguai

Lembro que quando eu cantava, ela ficava olhando para o teto com um olhar sonhador… e aí dizia de novo
baixinho: “Canta de novo, Inês?” (ela me chamava assim).
O que será que essa música a fazia lembrar ou sonhar?
Ah vozinha querida, você foi o protótipo da avó: doce, meiga, cheirosa, gostosa, como minha irmã bem lembrou,
sentada naquela cadeira de balanço, naquele vai-e-vem, sempre com aquele sorriso terno e aqueles braços
sempre abertos para nós.
Que Deus a proteja sempre vozinha querida, e saiba que tenho lindas lembranças suas e a amo muito.
Sua neta,
Inês


Mary Fioratti




PS: Nessa foto ela está com sua neta Maria da Graça (filha do meu tio Flávio) e sua primeira bisneta Gabriela, e a
medalha de ouro que ela tem em volta de seu pescoco, eu a herdei, com muita honra.










Edição: 14.06.04



® Mary Martins Fioratti
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