Com o passar dos anos morando neste país, posso ver muitas diferenças em relação ao Brasil no modo como os idosos são tratados, mesmo encarados.
Desde que cheguei aqui, passei a admirar o modo pelo qual o americano trata o idoso. Ele tem espaço na sociedade. Não se sente alienado. Participa. É "gente".
Lembro-me de uma vez que fui no McDonalds e um idoso limpava a mesa. A Patti era pequenininha (morávamos em Detroit). Comecei a conversar com ele.
Ele disse que eu não podia imaginar como ele se sentia feliz limpando mesas, conversando com as crianças, e além de tudo, ganhando seu dinheirinho.
Naquele momento me lembrei de meu pai. Quando ele foi "aposentado" injustamente pela Cia. de Cinemas, desesperadamente procurou emprego.
Lembro-me que trabalhou na Companhia de seu amigo Luiz Gonzaga Pinheiro e depois na Doceira do Vale.
Depois disso foi tão difícil arrumar outra coisa e ele queria tanto trabalhar! Tinha vontade e força!
Lembro-me com carinho a última vez que o vi. Ele, sentado na área (85 anos), me disse: "Eu queria tanto trabalhar, filha. Mas ninguém me emprega". Colocou a mão no bolso e disse: "Mas eu tenho aqui 300 mil" (eram 300 reais da sua aposentadoria).


Aqui o idoso nao é visto como "fim de linha". Qualquer pessoa aqui, querendo trabalhar, trabalha.
Outro ponto muito interessante são os lugares onde os idosos ficam, os "Retirement Homes" (Asilos).
Um filho normalmente vende tudo que a mãe tem e a coloca num lugar desses.
No começo, eu me chocava muito com isso.
Até comentávamos assim: americano é assim, dá presente no dia das mães, a leva para almoçar, visita, mas quando elas ficam doentes, eles vendem todos seus bens e a colocam num Asilo.
Com o tempo observei não ser esta a realidade. É apenas uma visão cultural. O americano é muito prático.


Conversando uma vez com uma velhinha (quando fui em uma Loja que vendia artigos religiosos), ela disse que morava em um Asilo e que gostava muito.
Contou-me que morava com duas companheiras em seu quarto. Tinham hora para tricotarem juntas, assistirem TV na sala comunitária, hora de almoço, do soninho, e Domingo era dia de visitas.
Então ela disse: "Meu filho queria que eu morasse com ele. Mas eu ficava muito preocupada com os meus netos. Gosto de onde estou".
Aquilo me fez pensar. Um idoso já passou por todos os problemas possíveis com filhos, relacionamentos. Já teve sua quota.
Não querem ser cobrados. Querem ser eles mesmos.
Morar junto significa "participar dos problemas" e ver também o desentendimento do casal.
Vi isso uma vez quando fui na casa de uma das amigas da Patti. A avó da menina era cobrada pela família porque estava triste. Perguntavam para ela o porquê da tristeza. Não queriam que ela chorasse.
Percebi que ela tinha um grande desejo de ser ela mesma. Começou a chorar. Aquilo me marcou muito. Senti que morando ali ela não tinha nem a liberdade de estar triste.


Os idosos nesses "Asilos", podem ter sua própria vida. Já acabou a época da preocupação com os filhos, horários e cobranças.
Eles só querem ficar tristes quando tiverem vontade, chorar quando sentirem necessidade.
Não se envolverem em problemas da casa. Já viveram muito e querem viver sua própria vida.
Mesmo nós, às vezes, queremos chorar e não temos espaço. Se chorarmos, as perguntas começarão: "Por que você está chorando?" "O que tem?" "O que está errado"?
Então… daí essa maravilhosa liberdade de poderem ser eles mesmos…
Já viveram tanto…sofreram tanto… chegou a hora deles relaxarem e viverem a sua vida, e não mais dependerem dos filhos.
Dependerem da sua própria fragilidade, mas que os tornam fortes, lutando por ela.
Hoje vejo essa parte da cultura de uma outra maneira.
Dando ao idodo o direito de chorar, de não explicar atitudes, de não ser cobrado, um simples direito de existir.


Pretendo no Segundo semestre deste ano começar um trabalho voluntário em algum Asilo.
Sempre desejei fazer isso. Ir lá, conversar com os idosos, levar alguma coisa. Fazer a unha das velhinhas, passar creme nas mãos, conversar.
Honestamente, acho que isso faz um bem tremendo para nós. Porque com eles, sempre podemos aprender tanto!
Eles são uma cesta de ternura e uma caixa de surpresas. As suas histórias, verdadeiras Enciclopédias de Vida.


Queria dizer que entendo a diferença da realidade Brasileira com a Americana. E a diferença de cultura. Sei que no Brasil é dificílimo um Asilo decente para deixarem os idosos. Sei que não há comparação do tipo dos "Asilos" daqui, que são inclusive caríssimos. Mas o que eu quero dizer é que, independente de qualquer coisa, se o idoso tem condições de morar sozinho com alguém que lhe faça companhia e tome conta dele, é melhor do que morar com os filhos. E não cobrá-los tanto.


Muitas vezes os filhos ficam com dó de deixar que eles vivam sozinhos. Mas eu senti aqui, como é importante essa liberdade para eles.



Vou deixar aqui no final, duas frases do avô do Roque, (Vô Brasilino - Beio) que o primo Luiz nos escreveu e contou, quando da sua formatura em Engenharia. Foram os conselhos dados pelo avô:


1) Não leve a vida a ferro e fogo .
2) Um "honesto" cabe em qualquer lugar (esse foi o jeito simples dele dizer, querendo dizer: "uma pessoa honesta".


Prestem atenção na profundidade da Segunda frase. Quantas verdades aprendemos com os idosos !


Até hoje lembro do meu pai que andava pela casa com sua caixinha de fotografias. E quantas vezes eu sentei com ele para escutar o que ele tinha para dizer de cada uma. De repente ele parava e me perguntava: "Você sabe onde mora o meu tio João?" (ele já havia morrido há tanto tempo!).

Quando eles quiserem falar, ouçam suas lembranças. Porque elas são tudo que eles têm.


Mary Fioratti











Edição: 05.04.04


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Mary Martins Fioratti
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