LEMBRANÇAS QUE ACALANTAM

Quanto mais o tempo passa, sentimos que as lembranças mais nos acompanham.
Coisas que para nós eram tão naturais, com o tempo passam a ter um significado muito diferente, e muito mais intenso.

A lembrança da nossa infância, da juventude, do primeiro amor, do primeiro namorado,
do primeiro baile, das reuniões de família, dos natais, enfim, tudo começa a passar
na nossa cabeça como um filme.
Mas uma coisa que começamos a sentir falta mais do que tudo, é da nossa família,
nossos pais, nossos irmãos, e um tempo que já passou.

Tenho lembranças assim que são como um "tesouro" guardado na memória.
Do nosso primeiro cachorrinho. O Toquinho.
Meu irmão queria muito um cachorro, e no aniversário dele meu pai comprou. Naquele
tempo tínhamos uma Loja de Cosméticos e meu pai o colocou dentro da gaveta
da Caixa Registradora.
Chamou meu irmão e disse: "Zé, abre aquela gaveta e pega um dinheiro que tem
aí e trás aqui para mim".
Meu irmão abriu a gaveta e deparou com o Toquinho, balançando o rabinho.
Foi um momento de emoção e alegria para toda família.

Uma lembrança engraçada: eu adorava pimentão recheado, principalmente o que a
minha mãe fazia. Era uma delícia!
Mas detestava sentar na mesa e ouvir meu pai falar: "tira a pele do pimentão que faz mal!"
Eu gostava tanto da pele do pimentão ! E tinha que tirá-la. Mas depois que ele saía da
mesa, eu escondidinha comia tudo ! (risos).

Meu pai não permitia que falássemos que não gostávamos de uma comida. Sempre que "tentávamos" dizer isso, ele dizia: "Não tem nada de não gostar, tem gente
que não tem nada para comer".
Um dia na mesa, minha irmã comendo sua salada parou e disse: "Essa salada está
com um gosto muito esquisito!".
E meu pai: "Que gosto esquisito nada menina, come aí a salada!".
A hora que ele colocou na boca, saiu da mesa imediatamente e correu para a cozinha.
Aí voltou dizendo: "Sua mãe colocou detergente de pia na salada em vez de vinagre!"
(os vidros eram muito parecidos! - risos).

Outra lembrança engraçada: Meu pai era Gerente de Cinema e chegava em casa tarde, pois tinha que fechar o cinema depois da segunda sessão. Um dia chegou em casa, abriu a geladeira e viu um bife a milanesa num pratinho. Pensou: "Humm que delícia, vou no bar da esquina buscar uma cervejinha e vou comer com pão". Saiu e foi comprar a cervejinha. Nesse interin, meu irmão que estava dormindo, acordou com fome, foi na cozinha e abriu a geladeira. Viu o bife, e sem dúvida alguma, o comeu. E foi dormir. Meu pai chegou com a cervejinha. Abriu a geladeira. Pensou. Fechou. Abriu de novo. Fechou. E pensou: "Tinha certeza que vi um bife!" Frustrado fechou a geladeira, guardou a cervejinha e foi dormir.
No outro dia soubemos a história.... e rimos muito!

Quando íamos a bailes, no outro dia meu pai perguntava na mesa: "E aí,
conheceram alguém diferente?"
E eu dizia: "Ah pai, esses caras são tão chatos, tão iguais! Eles perguntam:
"Qual o seu nome?" "O que você faz?"
Meu pai dizia: "Minha filha, o que você quer que ele pergunte? A conversação
tem que começar de algum modo".

Lembro de meu irmão no quartinho dos fundos conversando no Rádio Amador. Seu primeiro carro que foi um corcel prateado com bancos revestidos de tecido "jeans" !
Uma coisa que lembro muito foi que a vida inteira esperei meu irmão chegar em casa, e ele detestava quando abria a porta e lá estava eu no sofá, comendo unha, de "touca" !
(lembra Zé?). Mas não conseguia dormir enquanto ele não chegava.

Uma vez anunciaram que o mundo iria acabar à 1 hora da manhã. Liguei para a casa
do amigo dele (Sérgio Savastano) e disse: "Zé, volta para casa que o mundo vai
acabar à 1 hora da manhã!"
Ele falou para mim: "Ah Maria Inês, não me amola! Se acabar mesmo, que diferença
faz eu estar aqui ou aí?"

Comidas que minha mãe fazia que eu sinto saudades: batata ao leite, pimentão recheado,
Bolo de batata com carne moída, bolinho de arroz, aquele feijão gostoso, aquele arroz branquinho, manjar branco feito com coco puro, arroz doce.

Um dia ela baixinho na cozinha disse para mim: "Nunca contei para ninguém, mas
sabe por que o caldo do feijão fica grossinho? É que alguém me ensinou
colocar uma colherinha de maizena!" E lembro que riu como uma criança
que escondia um segredo.

Comidas do meu pai que tenho saudade: uma sopa de verduras deliciosa que ele fazia,
frango a passarinho e colocava alho picadinho em cima, lagarto recheado com
ovo e linguiça, com um molho delicioso de tomate em cima, e as
suas saladas improvisadas na hora.

O que gerou este meu escrito sobre essas lembranças, foi uma poesia que minha
irmã me mandou hoje e que achei muito linda e chorei ao lembrar muitas coisas.
Lendo a poesia dela, viajei pelo tempo e senti muitas saudades,
que me trouxeram muitas lembranças.
E uma delas, éa nossa prece conjunta que fazíamos à noite, e que quero deixar aqui escrita: "Dorme com Deus, com Jesus, com tudo que é Sagrado, com Nossa Senhora Primeira,
e Nossa Senhora Segunda".
Não sei porque, mas tínhamos duas Nossas Senhoras. E quando fazíamos essa prece,
estávamos sempre de costas, mas encostadas uma na outra,
por termos medo do quarto escuro.

Mary Fioratti


Do jeito que eu quisesse...

Se existe um Céu,
queria que me fossem concedidos
poderes extraordinários,
para reconstruí-lo,do meu jeito..
para colocar no Infinito
tudo que eu quisesse...
todos os momentos tão calmos
e despreocupados
que a minha lembrança retem:

O despertar cheio de sono
ouvindo os ruídos familiares..
o cheiro do café que nos arrancava da cama...
os risos e conversas...soando pela casa...
meu primeiro olhar ao teto de madeira
que de manhã era dourado...(e ninguém pode negar)..
Depois eu queria guardar lá no céu, também,
as conversas à mesa da cozinha...
lugar sagrado, onde os olhares se encontravam
cheios de carinho...e onde ninguém
tinha coragem de mentir...
(por que será?)
E neste Céu, queria colocar sem falta
o assovio de meu pai nos chamando..
(inconfundível)...
o olhar tão doce e profundo de minha mãe..
que de repente se parecia tanto
com os olhos ternos de minha avó,
tirando do forno, uma bandeja de suspiros..

Ah,e eu suspiro tanto, também, pelas tardes
em que o Sol era tão lento para
ir-se embora, e aguardava pacientemente
que a gente se cansasse das brincadeiras
e das correrias no fundo do quintal...
E queria levar também pro meu Céu
se ainda sobrasse espaço,
os perfumes todos que eu sentia
nas primaveras tranquilas,
e mais,o latido de nosso cãozinho,
e os abraços todos, e as risadas
(das tristezas, eu nem me lembro muito..)..
E o se coubesse também colocaria nesse paraíso
as noites escuras cheinhas de estrelas
tão próximas que até magnetizavam a alma...
e os sons dos grilos,
vigilantes incansáveis, quebrando o silêncio
das noites mais assustadoras...
E a prece conjunta que, noite após noite,
eu e minha irmã compúnhamos,cada dia um pedaço,
conjuração espontânea, pra vencer o medo
dos fantasmas errantes...
e em meu céu guardaria também, entre tantos outros
momentos enternecedores,
o abraço consolador de meu avô, transformando em
um sorriso, minhas lágrimas infantis..

Tantos momentos...que no Céu eu colocaria
se poderes tivesse...
faria uma colcha de retalhos, emendando,
os momentos de alegria...e somente
a beleza dos encontros, dos abraços,
dos sorrisos ...doces e singelas emoções,
E tudo que o tempo cortou e suprimiu,
com sua tesoura cega...
eu recolheria novamente, pedaço por pedaço,
para reconstruir meu Céu, do jeito que eu quisesse...

Maria Lúcia










Edição: 07.07.04



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