Vou Voltar ?



Morar em outro país não é fácil.

Lembro bem quando o Roque me ligou (na época eu trabalhava na Squibb em S.Paulo) dizendo que tinha sido transferido para os Estados Unidos.


Na hora, senti uma coisa tão estranha dentro de mim. Este era o sonho deste menino desde pequeno.

Morava numa cidadezinha pequena, e ja comprava gibizinhos em Inglês. Dizia para a mãe: “Um dia eu vou morar nos Estados Unidos”.

E ela: “Tá bom filho…tá bom”. Mal sabia ela, que seu sonho seria realidade.

O pai queria tirá-lo da escola. Dizia que iria empregá-lo como “mecânico”, e que seria melhor para ele.

Vejam como é a vida... Ele trabalhou, estudou, teve dois empregos quando menino, fez três Faculdades, e conseguiu realizar seu sonho.

Mas...voltando ao que eu estava contando... quando o Roque me ligou, o Celso, Gerente de Controle de Qualidade, estava sentado na minha sala esperando ser chamado pelo meu chefe. O Celso era muito meu amigo.

Desabei a chorar ali mesmo. E o Celso me dizendo: “Mary, é uma excelente oportunidade!”. Mas eu, emocional como sempre, e nunca racional.

Na época nós morávamos em São Paulo, em um apartamento de um quarto, no Brooklin. Ficava no 16º andar, e eu amava aquele lugar! Amava São Paulo, e nossa vida naquela cidade.

Fins de semana no Parque Ibirapuera (o Roque ia correr, e eu andava), shows do Jô Soares, jantares na Famiglia Mancini (restaurante Italiano delicioso), idas a “Mestiças” (aquela casa de chá com bolos e doces em Moema), cinema, teatro....

Fazíamos os dois, ginástica aeróbica no Brooklin, e eu frequentava a Academia Mizuki para manter a forma. Nunca fui tão “em forma” na minha vida!

Costumávamos ir para S.José dos Campos ver nossas famílias, de 15 em 15 dias, onde mantínhamos um apartamento mobiliado.

Ficava pensando à noite, como seria essa mudança. Lembro que virava na cama, olhando a Patti tão pequenininha, pensando como seria morar em um país diferente.

Lembro até hoje o último dia em S.Paulo. Dia 26/10/1990. Minha vizinha, querida amiga Sônia e eu chorávamos tanto, que nem podíamos nos encontrar nos corredores do prédio. Éramos mais do que amigas, éramos irmãs.

Aquele dia cedinho nos cruzamos no elevador, nós duas com os olhos inchados, e nem podíamos olhar uma para a outra. Um abraço apertado, tão doloroso!

E minha família? Que tristeza deixar meus pais, meus irmãos, meus sobrinhos. A família do Roque. Quanta coisa na minha cabeça!

A última lembrança: seis malas na calçada, o Roque, eu, a Patti no colo de minha comadre/amiga Dirce, seus filhos na calçada, e chorávamos...como crianças.

Tomamos dois taxis, (as malas não cabiam) e fui chorando e contando minha vida para o motorista. Foi então que ele disse para me distrair: “vai ser bom morar fora, moça”. “Olha moça, que rua arvorizada!”. (Risos).

No avião, de madrugada, a Patti começa a ter febre altíssima. Ficou inteirinha inchada, cheia de manchas. Fizemos uma viagem até Miami com o coração na mão. Foram chamados médicos disponíveis no avião, mas nada podiam fazer. Nos aconselharam a levá-la para o Hospital em Miami. Foram as 8 horas mais longas da nossa vida.

Paramos em Miami depois de 8 horas de vôo e fomos direto para o Hospital. O Roque ficou no quarto com a Patti, e eu subia e descia o corredor do Hospital, chorando e rezando.


Saímos do Hospital às 9 da noite, com ela medicada (teve infecção nos rins). Com esse incidente, eu me tornei tão forte e decidida, que para mim a única coisa que importava era a vida da minha filha.


Todos os outros contratempos, eu levei de um modo muito determinado. Chegamos em Detroit e ficamos em um apartamento mobiliado que a Empresa nos concedeu.

Lembro o primeiro dia de trabalho dele. Olhamos para fora e uma tempestade de neve nunca vista!! “Chovia” neve, o tempo tão escuro, parecia noite... Desci com ele para ajudá-lo a limpar o carro. Ele com seu “terninho” brasileiro (risos!) e eu toda encapotada... Limpávamos e de repente o vento trazia tudo de novo. Tivemos um acesso de riso... lembro que o Roque disse: “Onde fui amarrar meu burro?”

O Roque ia trabalhar de manhã, eu o levava de carro e ia buscá-lo. A princípio eu disse a ele: “Não vou dirigir aqui, não consigo!”. E ele como sempre, me “empurrando” para eu crescer. Disse: “Mary, claro que você vai dirigir. Amanhã já vai começar a me levar”.

O carro era da Companhia e eu morria de medo. Não sabia dirigir carro automático, o Roque me levou para um estacionamento e me treinou. Pronto! Estava eu prontinha para a “aventura”.

No começo tudo era tão estranho. Saudades daquele cheiro de Brasil no ar, do movimento de carros, das pessoas andando na rua. Tudo lá era muito morto.

Não se viam ônibus nas ruas. Somente carros. Pouca gente.

Muitas tardes eu saia empurrando a Patti no carrinho, observando as casas. Às vezes um vizinho parava, conversava , e eu me concentrava ao máximo para responder. Que difícil o entendimento da língua!

Mas eu usava muito o sorriso, o aperto de mão, e o contato dos olhos. Gente, como essa comunicação é“Universal!”

Lembrava muito daquele ditado que dizia: “Quem tem boca vai à Roma”... mas não só quem tem boca...quem tem braços, olhos, quem sabe sorrir, e rir... e levar a vida numa boa...

Ficava em casa lavando, passando, cozinhando, inventando receitas, deixando tudo em cima do pedido...

À tarde, colocava a Patti para dormir, e ficava assistindo televisão, me detendo nas novelas, onde eu aprendia um pouco da cultura do povo. Não que a cultura seja mostrada na “realidade” em novelas, mas dava para sentir um pouco, o povo. Seus costumes. E eu anotava todas as frases que não sabia. Estudava, olhando o dicionário.

Uma observação engraçada... Um dia falei para minha professora de Inglês se ela não gravaria o fim da minha novela “Days of our Lives” para mim, quando eu fosse para o Brasil de férias.

Ela me olhou, riu e disse: “Maria, aqui novela não acaba. Esta está passando há 20 anos”... (não me conformei! Risos).

Um dia procurei aulas de Inglês. Havia o ESL (English as a Second Language – Inglês como Segunda Língua, específico para estrangeiros ), e lá fui eu.... Do lado da escola, havia uma Escolinha de Crianças, só que eles não aceitavam crianças que não eram treinadas para irem ao banheiro sozinhas. Mas eu...como toda “boa brasileira” (risos) fui falar com a Diretora e expliquei que eu precisava aprender a língua, e que eu estaria ali, vizinho, que se ela precisasse me chamasse que eu iria trocá-la.

Então fiquei conhecida na minha classe, porque quando batiam na porta, lá ia eu trocar a Patti.

Foi uma maravilhosa experiência nessa escola. Fiz amizade com minha professora Joanne. Eu a convidava para passar a tarde comigo, e eu, ainda com tanta dificuldade de falar, falava com o coração. Gestos. Abraços. Chorava. Por isso eu penso, que não existe comunicação melhor, do que a dos sentimentos.

Conheci também muitos alunos e alunas como eu, que vinham de outros países. Fazíamos festas na escola, cada uma trazendo uma comida de seu país. Contavamos nossas experiências, ríamos, mas ríamos muito!

Aqui vão algumas:

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Historinha da Mary

Uma das minhas experiências...que eles riram muito, foi o dia que contei que chegaram nossos móveis do Brasil e estávamos prontos para sair do apartamento mobiliado e ir para outro que havíamos alugado. O Roque então pediu para que eu empacotasse tudo, e de manhã, ele iria sozinho para o novo apartamento, e quando a Patti acordasse, eu iria encontrá-lo. Ele iria receber nossos móveis.

Bom.... o Roque saiu de manhã cedinho. A Patti acordou as 9:00 da manhã, dei a mamadeira a ela, e comecei a me aprontar.... Eu estava vestindo apenas uma camisetinha curta. De repente, comecei a procurar minha calça jeans.... onde ela estava? Lugar nenhum! Eu a havia empacotado com as coisas que o Roque levou! A princípio comecei a rir... depois me deu desespero... Nos não tínhamos celular, nem telefone, nem comunicação aquele dia. Eu, de calcinhas, sentada, pensando o que fazer.

Aí... eu vi um cobertorzinho pequeno da Patti... dava para enrolar em volta de mim, mas ficava aparecendo minhas pernas (e algo mais – rs). Assim mesmo, desci no escritório de baixo, com a Patti no meu colo, para entregar as chaves.

A mulher do Escritório teve um ataque de riso.... ela dizia: “Oh moving day!”... (Ah.. dia de mudança...!”).

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Historinha de minha amiga Mexicana (Sara):

Ela estava indo para a escola quando o rádio começou a "apitar"... Ela parou em um Supermercado, pegou uma moedinha e ligou para o marido:

“Querido, precisamos trocar esse carro novo. O rádio só apita, apita, não toca música nenhuma”.

E ele: “Sara, isso é alarme de emergência!!!!!!!! Vai haver um tornado! Se esconda no primeiro lugar que você puder”. Risos...

* * * * *

Assim fomos aos poucos aprendendo a língua e os costumes...

E resolvi me candidatar a babysitter.

Meu primeiro trabalho foi tomar conta de três meninos (Tony – 7, Ryan – 5, e Joe – 6 meses). Foi uma experiência e tanto! Eles me adoravam, e eu a eles! E eu levava a Patti comigo.

Fazia comida para eles, brincava de jogos na rua, fazia o bebezinho dormir, e sempre no final do dia deixava um “diário” para a dona da casa, de tudo que eles fizeram. Nosso relacionamento se tornou muito terno. Eu, crianças, e os pais.

Em 1994 lá vem o Roque com outra notícia: tinha sido promovido e transferido para Cincinnati, Ohio. Eu já estava tão habituada em Detroit, com nosso apartamento, nossa Academia de Ginástica, minhas aulas de Inglês, meus amigos americanos e não americanos...ah...lá eu ia novamente....nova aventura!

Estamos em Cincinnati já faz 10 anos. Aqui eu pude começar a trabalhar (em posse do meu Green Card).
Moramos em um Condomínio de apartamentos e acabamos comprando uma casa, a minha casa que adoro.
Trabalho nessa Companhia Elétrica há 10 anos. É a minha família americana.

A empresa fica perto da minha casa, da escola da Patti, dentista, médico, supermercado, Ginástica, enfim...tudo a mão.

Temos nossos momentos solitários, mas desenvolvemos entre nós (Roque, Patti e eu) uma ligação de amor muito grande. Talvez bem maior do que quando morávamos perto da família. Aqui, contamos um com o outro.

Nós acostumamos com o país, com a cultura, admiramos muitas coisas, sentimos falta de outras. Da nossa família. Das conversas jogadas fora. E sempre estaremos repartidos, no sentido de viver... pedaço do nosso coração, no Brasil, pedaço aqui....

Choro quando ouço o Hino Americano. Choro quando ouço o Hino Nacional Brasileiro.

Vibro com tudo de bom que acontece no Brasil. Entristeço-me com a violência, com os problemas econômicos. Orgulho-me com as vitórias.

Sinto falta da família, dos amigos, dos carros buzinando, da multidão andando pelas ruas, do cheiro do pão quentinho saindo do forno da Padaria, da mortadela cortada fininha...do guaraná da Antártica (pode ser da Brahma), da coxinha de galinha com catupiri... do doce-de-leite da Nestlé, do sorvete de palito Kibon, do Café Pilão...do caqui madurinho, do mamão papaya, do requeijão.

Aquela feijoada deliciosa do Restaurante "Churrascos" na Avenida Portugal em Sampa!

Sinto saudades do barulho dos ônibus na rua, de conversar com o motorista, com o dono da padaria, com pessoas no ponto de ônibus. Parar na casa de um amigo para tomar um cafezinho feito na hora, sem a necessidade de ligar antes, e nem ter hora para chegar e para sair....

Pegar um telefone, e ligar para meus amigos, e dar risada horas ...sobre fatos acontecidos.

Marcar uma pizza na “Vila D’Aldeia”... tomar vinho, rir muito....

Ir ao Shopping com minha irmã, andar até gastar o salto da sandália...vendo as vitrines, ver gente conhecida, parar, dar abraços, marcar encontros, ver rostos queridos.

Sentar na Rodoviária para esperar ônibus, ficar conferindo os roteiros... “Será que esse ônibus passa em frente da casa da minha mãe?”

Ir na cidade, entrar naqueles ônibus cheios, onde o motorista fala: “Anda depressa Dona Maria, estou atrasado, sobe logo!”. Risadas gerais.... E ele se vinga no câmbio!

Descer no centro, e parar para comer um cachorro quente da barraquinha.... ir andando e ver o seu “Zé pipoqueiro” que costumava fazer pipoca em frente da Faculdade!

“Como vai a sra. Dona Maria? Não quer um pacotinho de pipoca? está cheio de queijo! A sra. ainda está morando “nos exterior”?

Tudo isso que escrevi foi o que senti quando um dia dirigindo para o trabalho, comecei a ouvir a música "Sabiá" cantada pelo Tom Jobim.

Comecei a chorar de emoção.... quando ele cantava: “Vou deitar a sombra de uma palmeira que já não há...colher a flor...que já não dá...”

Senti uma tristeza tão grande por estar assim repartida...e não sabendo se um dia voltarei.

Mas...Deus tem seus planos.

Aprendi um pouco a não pensar no dia de amanhã. E viver o dia de hoje, que é o meu “presente” (nos dois sentidos).

Mary Fioratti

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(Música: “Sabiá” – Quarteto em Ci – presente de minha amiga querida Judy Thereza).

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Edição: 25.09.04


® Mary Martins Fioratti
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