VOVÔ JUQUITA

Mary Fioratti

Pequena Introdução do meu Avô:

Chamava-se Jose de Freitas Guimaraes (apelido, Juquita) . Foi Escrivao da Coletoria de Rendas Federais, de Cacapava, Oficial do Registro Civil da Comarca de Marília, Tabelião do Cartório do Primeiro Ofício da Comarca de Jundiaí, onde se aposentou. Residiu em Caçapava, São Paulo, Jundiaí, Santos e Campinas, sendo que em Santos e Marília exerceu alguns anos a Advocacia, e era também Economista. Cidadão Honorário e Benemérito da Cidade de Guaratinguetá. Participou da Revolução Constitucionalista de 1932. Teve seis filhos (cinco ainda vivos). Escritor, Jornalista, registrado na Associação Paulista de Imprensa. Nasceu em 19/3/1896 e morreu dia 13 de abril de 1979.

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Quantas lembranças maravilhosas tenho do meu querido Avô Juquita, meu avô materno.Fomos criados tão próximos dele, que todas as lembranças que tenho são de carinho, amor, e ternura.Vovô era uma pessoa incrivelmente doce. Tinha um sorriso meigo, e um abraço como ninguém no mundo tinha.Quando ele nos abraçava, emanava aquele calor gostoso, e lembro-me sempre do cheiro da colônia que ele usava, misturado ao cheiro da brilhantina do seu cabelo.

Ele era tão vaidoso! Andava sempre de terno na rua , com gravata, muitas vezes segurando sua pastinha.

Lembro-me uma vez (quando ele mudou para São José dos Campos), um dia eu o vi na rua em direção ao correio.Vinha com seus passinhos pequenos, uma figura tão altiva, tão limpa, tão terna. Quando me viu seu rosto se iluminou: "Oi minha filha!". Era assim que sempre chamava a gente: "Minha filha".

Quando ele morava em Jundiaí, naquele belo sobrado, uma casa gostosa e acolhedora, antes do almoço, ele colocava as suas Óperas, e eu sentava na sala maravilhada com a expressão que ele tinha no rosto. Aquela música de Ópera e ele seguindo na capa do disco. Sentia arrepios com aquela música.

Às vezes ele chegava e nos dava um dinheirinho: "Toma minha filha, ganhei na corrida de cavalos hoje".

Vovô era uma figura! Muito espirituoso, sempre com suas brincadeiras divertidas e contando piadas.

Fatos engraçados do vovô:

1) Cantava uma musiquinha que ele inventou (a preferida do meu pai): "Você conhece o Pedreiro Valdemar? Se não conhece nao faz "mar"!

2) Ele gostava muito de jogar baralho com a família (buraco). Um dia na mesa, perguntou se alguem ia bater o jogo. Todos falaram "não". Então ele comprou todas as cartas (bagaço) como chamávamos. Em seguida alguém bateu. Ele olhou desapontado e disse: "Cambada de gente farsa!". Aquela frase foi usada pela família por muito tempo, como piada.

3) Ele era diabético, e tinha que seguir certa dieta. Um dia fez um sanduichão e se trancou no quarto. Minha tia Carmencita, sua filha, bateu na porta: "Pai, abre essa porta!" E ele respondeu: "Só quando acabar de comer esse sanduíche!".

4) Quando morava com a gente em São José, um dia eu passando na cozinha, ele estava cortando um pedaço de manjar branco. Quando me viu chegando, enfiou o pedaço com calda e tudo dentro do bolso!

5) Ou quando olhava para mim com aquelas saias curtinhas, dizia: "Minha filha, por que você nao me disse que faltou pano para a costureira terminar essa saia? Eu lhe daria o dinheiro! (risos).

Lembro-me bem quando eu ia passar férias com eles em Marília. Quando chegava, meu quarto estava todo arrumadinho, e em cima do travesseiro ele deixava sabonete, pasta de dente, um talquinho, um shampoo. E dizia: "Filha, deixei umas coisas lá no seu quarto para você. Comprei na Americana".

Ah vovô, que saudade hoje de você! Queria hoje que voce estivesse vivo, para enchê-lo de beijos, e ouvir com toda paciência do mundo suas histórias, e aquelas gravações que voce colocava para todos nós ouvirmos, e com aquela idade, não tínhamos paciência.Seus discursos. Seu passado. Sua história.

Deixo como final desta homenagem uma cartinha que ele me escreveu, quando pedi que escrevesse em meu Caderno de Recordações, o que acho uma jóia rara. Ele mesmo datilografou em sua máquina de escrever, aquelas antigas.

Deus o abencoe querido Vovô Juquita, onde você estiver. Seu legado foi de Amor, Compreensão, Carinho, além de nos ter deixado sua "veia da escrita".


Esta carta foi achada por minha tia Carmencita há pouco tempo.
Ela foi escrita por um amigo de meu avô, que minha tia conseguiu localizá-lo depois de todos esses anos.
Esta carta me emocionou muito! Porque quando ele descreve meu avô, eu pude sentir em
sua descrição "aquele" meu avô que conheci : terno marrom brilhante, óculos de aro de
tartaruga, e aquele anel...ah vovô! Pude visualizar suas mãos, com aquele anel de rubi...
Pude até ver o seu sorriso terno....
Obrigada João Cassinha, pela fidelidade de sua descrição, e por trazer de volta esta imagem
de meu avô de um modo tão nitido!

O Trevo

(Ao amigo Juquita)

Em todos os meus 19 anos, nunca tinha encontradoum trevo de quatro folhas, o trevo da sorte. E já não tinha esperança de um dia encontrá-lo. Sem menos esperar, um dia, naquele vasinho lá do fundo do jardim, percebí aquele talismã vivo escondido pelas folhas dos trevos comuns quefaziam uma muralha de confusões. Tomando-o nas mãos, disse com os meus botões:
-Por que será que certas coisas são difíceis de ser encontradas, tão raras? Será pelos seus valores, como as pedras preciosas, ou pelo prazer e felicidade que nos causa, como uma leal amizade?
Como o trevo de quatro folhas, existem muitas coisas para as quais é preciso bastante tempo ou mesmo toda uma existência e observação para encontrá-las, como por exemplo, um verdadeiro amigo.
Um amigo sincero, devotado e fiel, é difícil encontrar, porémpenso já tê-lo encontrado.
Custou, mas encontrei-o. Assim aconteceu:
Era uma manhã radiosa, azulada, que dava um toque de alegria em tudo que me rodeava, naquele banco de quadrinhos vermelhos e pretos do jardim.
Do outro lado do jardim, à minha frente, um grupo de pessoas palestrava.
Dessa pequena reunião, uma pessoa sobressaiu, de repente, aos meus olhos, tal como um raio de luz nas trevas.
Cochichou-me o pensamento que eu já tinha visto aquela pessoa, que já a conhecia há muito tempo, mas de onde, não sabia.
Em largas passadas, atravessei o espaço entre mim e o grupo. Aproximei-me. Alí estava ele, no seu terno marrom, brilhante, distintivo circular na lapela, cabelos grisalhos nas têmporas e óculos de aro de tartaruga,da-vam-lhe uma aparência de sábio.
Tudo isso num só efeito, imprimía-lhe um ar de respeito, como aquele que observamos em nossos pais. Sua voz era firme, indicando força de vontade e caráter resoluto.
Através das esverdeadas lentes, contemplei seu olhar penetrante, porém inspirador de confiança, envolvendo todos aos redor, no seu halo amigá- vel. Fui-lhe apresentado. Seu aperto de mão era sincero, tão autênticoquão vermelho era o rubí de seu anel e, naquele momento, como um sussurro, as cordas do meu íntimo vibraram numa só voz.:
-Confia nele, pois ele parece que vai confiar em você. Como um passo de mágica, veloz como um relâmpago, um lampejo correu em meu pensamento naquela afirmativa de que aquele era um amigo, o meu amigo.
Não fui enganado. Ele era, realmente, um amigo. e até hoje o é, confirmando que um amigo não se faz, e sim se encontra, porque todos nós, na nossa vida, já temos um amigo que um dia, mesmo um pouco tarde, nos aparece para demonstrar sua alegria quando estamos felizes e tristeza, quando sofremos.
Apelemos sempre para esse amigo. É algo de precioso em nossa vida.

JOÃO CASSINHA










Edição: 15.05.04


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