Quando penso em minha mãe
lembro-me de uma palavra:
fragilidade...
Era assim como alguem
que nem sempre
enfrentava o mundo lá fora
e muitas vezes, sentíamos
como se precisassemos
conduzí-la pelas mãos.
Bonita e frágil
como uma flor..
como uma taça de cristal
que a todo instante
fosse quebrar-se.
E quando o mundo a invadia,
questionava-se, e muitas
vezes tremia...
Era assim a minha mãe
diante do mundo.

Mas, por isso mesmo
era tão bela,
por desfazer padrões
e surpreender-nos
com a força
de uma sensibilidade
rara, raríssima...
expressando-se apenas
na intimidade
de nosso espaço.
Olhos imaginativos,
enxergando além das palavras
enquanto nos ouvia,
mãos de fada,misturando
ingredientes de sonhos,
nos deliciosos pratos,
nas roupas que costurava
com entusiasmo infantil...
No tricotar carinhoso,
transformando em cores suaves
os novelos embaralhados
de nossos destinos.

Não era feminista, minha mãe..
apenas feminina.
E seu perfume invadia a casa
em cada pequeno arranjo,
enquanto o seu riso preenchia
todos os desconhecidos vazios,
de nosso alma.
E quando aconchegava-se,
para falar e ouvir
sabíamos que finalmente
estávamos em casa,
em um mundo todo particular
que seu coração criava.
E naqueles momentos
não importava o orgulho
de nossas conquistas
e as doloridas derrotas.
Porque havia um jardim
cheio de flores,
e plantas singelas,
espalhadas sem ordem certa.
E um cheiro de bolo
recem criado, saindo do forno.
Havia, em tudo, o brilho
de uma essência:
o nosso eterno ponto
de referência.

Mudou o mundo, e as faces
fizeram-se pálidas e sombrias.
Apagaram-se lentamente,
o sinais exteriores
dos lugares, dos jardins.
Esvairam-se os cheiros,
morreram todas as plantas,
e milhares de flores...
Os sons calaram-se.
Esvaziou-se a casa,
e o vento da mudança
foi impiedoso...em tudo,
ou quase tudo.
Só não consegui varrer
o que ainda mora aqui,
preso na alma.
Não tem esse poder, o vento.
de roubar os sonhos,
heranças que em meu corpo
caminham sempre
desde a primeira e única
transfusão de Vida.

É assim, bem assim,
que minha mãe ainda existe em mim.
e sua eternidade transcende
toda fragilidade e força.
Simplesmente porque, uma vez,
carregou meu corpo,
depois,alimentou-me a alma
e em seguida, deixou-me aqui.

Sentir a tua falta física
é sentimento egoista, pois,
fostes apenas minha mãe,
entre tantas outras coisas
que fostes neste mundo.

Fostes exemplo de ternura,
doses de pura sensibilidade,
amor, compaixão e humildade
que embriagavam diariamente
o meu inexperiente coração.

Fostes meu colo intra-uterino,
extra-uterino nos teus braços,
acomodado nos teus seios,
bebendo o leite morno da vida ,
adoçado por teu meigo olhar.

Fostes e fiquei,
com a saudade,
com as lembranças,
no meu, já agora,
experiente coração.

Ave Maria,
cheia de graça;
bendito fruto
que retornou
ao teu ventre.