COTIDIANAS PALAVRAS

Essas palavras
que eu digo
ou dizes agora,
cotidianas palavras,
inconscientes palavras,
nada significam
nesse tempo
sem memórias
que, vorazmente, devora
vocábulos e sonhos...
triturando-os todos...

Alegria, tristeza,
o tédio, o êxtase...
a raiva, a agonia..
tudo passa,
tudo parece dissolver-se
na insignificância do presente
e guarda-se para o futuro
a roupa nova
o sorriso mais iluminado,
a prece mais ardente...
a viagem inesquecível...

Toda consciência
do gesto plenamente vivido
é coisa do amanhã...
A menos, que o caminho
interrompido,
sem esperanças de retorno,
detenha-te bruscamente...

Tua mais banal palavra
será então lembrada e
aquela passageira alegria,
o sofrimento ignorado,
ressurgirão, das cinzas
de teu corpo...
A estranheza do que é
desconhecido
transformará em divino
o que é profano,
em maravilhoso
o que é comum...

E as cotidianas palavras
murmuradas na inconsciência,
serão resgatadas
quando tua história
for contada e recontada...

Por isso, queria escutar-te
agora,
quando teus passos
ainda ressoam neste mundo
e ainda posso ouvir-te dizer
da tua alegria
ou da tua tristeza,
quando ainda posso sentir
tua raiva e indignação...
e enquanto posso entender
os motivos de tuas lágrimas...

Antes que te transformes
em lenda...
e eu seja mais uma história,
recontada,
vamos parar um pouco
e nos envolver ou nos deliciar
com esses momentos
sem nenhuma importância..
E, como as águas do rio,
que docemente murmuram
segredos às pedras
sem nenhuma pressa,
vamos escutar, mais uma vez,
nossas queixas
nossos sonhos
escondidos atrás
dessas cotidianas palavras...


Maria Lúcia










Edição: 29.06.04








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