Era apenas uma criança e a vida
já me levou à escola...
E todos diziam
que era preciso aprender
nos livros.
Debrucei-me então, anos sem fim
em papéis e letras,
palavras escritas
que não eram minhas,
mas ditavam as regras do meu viver...

Os olhos muitas vezes escapavam,
seguindo a borboleta que saía,
ou entrava,
pela janela aberta..
E os ouvidos procuravam os sons
interessantes, que os livros
não reproduziam..
e por momentos eu desaprendia
e me perdia
na luz intensa que teimava
em me chamar...

Aí, dentro de mim soava
a voz repreendendo:
"não perde tempo",
e eu voltava às letras,
e obedecia ao tempo,
e pensava em alegrar
meus ancestrais..

Tanto tempo, e hoje,
sem querer, fico imaginando,
em quantas luzes intrusas,
deixei de viajar,
no cantar dos pássaros
que deixei de ouvir,
quantas nuvens, estrelas,
chuvas e ventos,
abandonei,
quantas poesias,
eu recusei,
presa na cela cinzenta
daquelas letras...

Penso agora
como é bom,
sentir-me solta
e liberta..
Deu-me um presente, o tempo,
que é o direito de seguir
o vôo livre das borboletas,
a conversa inocente dos pássaros,
as tempestades se formando
as nuvens se transformando,
e o radiante Sol protegendo
o meu reaprender...
Finalmente, saí da escola
e agora comecei
a viver..



Maria Lúcia













Edição: 01.06.04








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